Da Casa dos Faria Gaios à Estalagem do Brazão
Por alturas de 1500, morava na rua da Lage (1), nesta Vila, um cavaleiro, João Martins Gaio, casado com D. Maria Afonso da Maia (2), da casa dos Mendes da Maia de Guilhabreu, aparentado com as principais famílias do reino, entre elas a dos Farias, que deram dois fidalgos ao Gama quando da sua primeira viagem à Índia, Francisco e Pedro de Faria, que se perderam na costa de Moçambique e que Luís de Camões celebrou nos “Lusíadas”.João Martins Gaio, teve do seu casamento um filho, António Martins Gaio, fidalgo-cavaleiro por alvará de D. João III que casando com D. Maria Felgueira, de Vila do Conde, instituiu o morgadio da Fervença, com cabeça em Vila do Conde, nele vinculando as suas terras de Gilmonde (Barcelos), a Capela de Madre de Deus, na Póvoa de Varzim e os foros de Rio Mau (Vila do Conde) (3). Foi este António Gaio, capitão-mor de Vila do Conde e pai de numerosa prole que se ligou às mais distintas famílias do Reino. Jaz na Matriz de Vila do Conde com sua mulher e cunhado, na Capela de Nossa Senhora dos Anjos, que mandou erguer à sua custa (4). Uma descendente de António Gaio, D. Filipa Martins Gaio, casou com D. Pedro Affonso de Leça Carneiro, da ilustre família dos Carneiros de Vila do Conde, Senhores da Capela de S. Bento. Do seu casamento nasceu D. João Ribeiro Gaio, Bispo de Malaca e Arcebispo de Goa, autor de diversas obras, entre elas um “roteiro da costa de Achem” e D. Estácia Maria de Oliveira Gaio, que foi casada com um fidalgo da casa dos Farias.
Ao findar do século XVII, uma parenta de D. Estácia, D. Maria de Oliveira Gaio, que tinha o seu solar na rua das Donas, casou uma filha, D. Ângela da Costa, com D. Francisco do Couto Azevedo, da casa de Alpedrinha. D. Ângela e seu marido mandaram construir na rua de S. Bento a casa de Vinhal, aonde hoje funciona a Escola de Rendas. Fosse para estar próxima da sua parenta, ou por quaisquer outras razões, D. Estácia Maria Gaio, por ocasião do casamento de sua neta, D. Eulália de Faria Gaio, com António da Rocha Pereira, descendente de D. Rodrigo Pereira, Senhor da Casa e Torre de Pereira, nas Terras de Faria, mandou erguer a Casa Grande, na Rua de S. Bento. Foi este Rocha Pereira que mandou aumentar a Casa Grande e lhe pôs nova pedra de armas. Morto Rocha Pereira, herdou a casa seu filho Mateus da Rocha Pereira de Faria Gaio, capitão-mor de Vila do Conde, já senhor, por sua avó, do morgadio da Fervença, da Casa e da Capela da Madre de Deus na Póvoa de Varzim, e de outros vínculos.
Do casamento de Mateus Gaio com D. Violante Veloso, da nobre Casa de Venda Velha de Candoso, Vila Flor, nasceu Bento da Rocha Pereira de Faria Gaio, que prestou relevantes serviços na Câmara Municipal de Vila do Conde e instituiu herdeira da Casa Grande sua neta, D. Maria Cristina Pereira Gaio, que se casou duas vezes. A primeira, com um seu próximo parente, Manuel de Magalhães de Araújo Pimentel, da Casa de Gandarela, Basto (5) e de quem teve um filho, Lourenço de Magalhães de Araújo Pimentel (6). Do segundo casamento, também com um parente, D. Francisco de Noronha e Menezes, senhor da quinta e casa da Prelada, em Ramalde, na cidade do Porto, D. Cristina não teve filhos.
Em 1882, veio morar para Lisboa um rico comerciante do Brasil, oriundo da nossa freguesia de Macieira, de nome Joaquim da Silva, “separado judicialmente” e que, feito comendador, juntou ao seu nome o da terra onde nascera. Foi este comerciante que comprou, em 27 de Julho do ano de 1882, por 4.500$00,a “Casa Grande”, mais a “casa da nora” e outras “casas no quintal”, “todas foreiras à Santa Casa da Misericórdia desta Vila”.
Joaquim da Silva Macieira, logo que entrou na posse da “Casa Grande”, por imposição de D. Cristina mandou apear a pedra de armas. Mas como era comendador, resolveu lá colocar outra, a “sua”. Nestas, como noutras coisas, o que interessava era o dinheiro: não faltou quem esculpisse um brazão de fantasia. Razão alguma assiste àqueles que teimam em chamar à “Casa Grande”, solar dos Macieiras.
Dez anos volvidos e depois de mandar fazer diversas construções e alterar interiormente o prédio – os tetos de caixotão foram substituídos por outros em “alfarge”, com excepção dos do pátio e dum salão no rés-do-chão – Joaquim da Silva morre e lega a “Casa Grande” à Junta de Freguesia de Macieira. Mas a Junta de Freguesia não pode arcar com os encargos do legado. Assim e com a aquiescência da Câmara Municipal, põe a “Casa Grande” em Praça, no dia 20 de Dezembro de 1892, sendo arrematada pela quantia de 4.500$00, pelo então oficial de diligências do Tribunal de Jurados de Vila do Conde, Joaquim João Francisco Praça, o “Garrista”, casado com D. Leocádia Flausina da Conceição Praça. Por morte deste passou a “Casa Grande em usufruto para os seus descendentes e a raiz para a Santa Casa da Misericórdia e Asilo da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Vila do Conde, que, por mútuo consentimento, a venderam em praça aos Srs. Celestino Fernandes Ramalho e Joaquim Dias Maia, dois conhecidos capitalistas vilacondenses, que por sua vez a venderam ao Sr. Aires Fernandes Ramalho, proprietário e capitalista, também de Vila do Conde, que nela mandou instalar, após completo restauro, a luxuosa residencial a que pôs o nome de “Estalagem do Brazão”.
O brasão da “Casa Grande”, conforme a pintura nas costas duns bancos que pertenceram à Casa e que se guardam na Câmara Municipal desta Vila, tinha por timbre (indicativo dos graus de nobreza), a Torre dos Farias e no primeiro quartel as armas dos Gaios; no segundo, as dos Pereiras; no terceiro, as dos Farias e no quarto as dos Rochas.
Antes do actual restauro, a ”Casa Grande” teve nela instalados os Serviços Municipalizados, o Instituto Secundário, as Escolas Primárias, os Bombeiros e até alguns particulares. A quando da venda pela Misericórdia e Asilo, estava arrendada à Câmara Municipal de Vila do Conde, que nela mandara instalar diversos armazéns.
Sendo a sua última restauração em 1994, a Estalagem do Brazão mantém assim a tradição e prestígio de dezenas décadas, prestando aos seus clientes a cortesia e tradição dos seus serviços.
1 - Rua da Lage era a actual da Igreja, só na parte compreendida entre a casa onde funciona a Biblioteca Abade Sousa Maia e a rua da Costa, ou de S. Pedro.
2 - D. Maria Affonso da Maia e seu marido, estão enterrados na Matriz de Vila do Conde, no Arco do Cruzeiro, “Memória Paroquial do Prior Luyz da Silva”.
3 - Nas “Memórias Paroquiais” de Rio Mau, em 1732, trazia os prazos da Fervença, Luís de Magalhães.
4 - António Martins Gaio e sua mulher estão, como dissemos, enterrados na Capela de Nossa Senhora dos Anjos, juntamente com seu cunhado Vicente Felgueira. D. Brites Felgueira e Vicente Felgueira, sogros de António Gaio, não estão, como escreveu Mons. Ferreira, juntos do Genro, mas sim no Cruzeiro da Matriz, numa sepultura com as suas armas e o letreiro onde se lê: “Vicente Folgrª e Britis Folgrª sua Mer. “Memória Paroquial” citada.
5 - Uma das casas de Manuel Magalhães, foi mais tarde “Casa da Roda de Vila do Conde”. Acta da Câmara Municipal.6 - Equivocou-se o falecido e distinto linhagista Conselheiro Carcavelos, quando escreveu que D. Cristina morrera sem filhos. Na escritura de venda do prédio, encontrou-se presente Lourenço de Magalhães de Araújo Pimentel, “filho da primeira outorgante, que vem ratificar esta escritura”. Livro de Notas N.º 187, do Escrivão Fernandes da Silva.